sexta-feira, 30 de outubro de 2009

FAZENDO JUSTIÇA (Canção do Exílio)

Eu que sempre me julguei

homem com a vida associado,

boquiaberto, agora, me descubro,

homem ao seu berço atado.

reagindo, hoje, pedirei,

na figura do terno sabiá

que em mim por inteiro se cale

este mudo eu me quer sufocar.

Possuído, então pelo silêncio,

deixarei penetrar-me o interior,

a alma acolhedora desta terra

para senti-la em seu todo esplendor.

Meu coração, assim, liberto,

muito surpreso e presto,

também amores e primores

por aqui achará decerto,

escapando, ileso, ao nocivo incesto.

Enquanto eu, ainda em vida,

conhecido de fato terei

dos mundos e seres a nata,

lhes fazendo a justiça que neguei.

E, apossado de minha real identidade,

moderado no ofuscante narcisismo,

conviverei com todos os povos,

em grau de permanente igualdade,

sem preconceitos, dependências ou egoísmo.

DO QUE EU TENHO PARA LHE DIZER, MULHER

Meu modo de lidar com você, reconheço,

ainda é insatisfatório, comprometido.

Resquícios de condicionamentos, talvez repressões,

induzem, sorrateiramente, este controvertido homem,

a comportar-se de acordo com certos padrões.

Careço, de algum tempo, por ilustração,

remeter aos seus ouvidos reais,

inconfessadas impressões minhas a seu respeito.

Simples coisas tal como dizer:

tenho pelo que agora intuo em você

incondicional admiração e proclamo:

nenhum dos inúmeros papéis que lhe destinam

alcança suplantar a sua ocultada natureza.

Confunde-me, porém, no expressar e viver estas convicções,

a múltipla experiência que provei com você:

mãe, babá, irmã, professora, namorada, modelo, política...Enfim,

passeiam por mim tantas e tão diferentes você...

O meu senso crítico, perante tal volume de informações

se desorienta, é claro, e paralisado se omite,

deixando-me a contatar planos e caricaturas suas

em lugar de abordá-la objetiva, inteira, essencial.

Olhá-la sem mistérios, sem legendas, sem obrigações...

leva o tempo de eu temer não chegar a vê-la assim.

Iconoclasta acuado por este desafiador impasse,

vejo no autoconhecimento a senda mais breve para você.

E, nesse sentido, confio na sua aptidão no entender os humanos.

Indenizá-la por sua solidão eu prometo na minha chegada.

Reencontrá-la ligeiro, portanto, ao reencontrar-me, saiba,

alguma coisa é que almejo e em que me empenho no presente.

MONÓLOGO

Mergulharei ainda mais fundo, acreditem !

As profundezas não me causarão pânico.

Romperei lajes de culturas submersas,

investigarei minuciosamente minhas imagens antepassadas,

as suas fontes geradoras, o meu sentido nesses momentos históricos.

Dentro de pouco tempo, avistarei debaixo do denso lixo cultural,

aquilo que seria a minha inata realidade existencial.

Garanta convicta a mim mesma

levar a cabo a tarefa de conhecer-me.

Os tipos que tenho feito até aqui, admito,

refletem muito precariamente o que sou.

Imagino de quanto sofrimento pouparei a mim e a ele

ao conseguir apresentar-me nua ao mundo !..

Como diferirá esta nudez da exibida pelas capas de revistas !...

A minha nudez abalará as certezas de um mundo

miseravelmente necessitado de autenticidade.

Poucos serão nesta hora solene

os que, corajosos, me fitarão,

sensibilizados com o meu renascimento.

Deixarei de significar o grande trunfo do “marketing” .

Estarei realizadamente fora de moda, desprestigiada.

O paraíso talvez não seja dos resignados, dos passivos...

Levei muito tempo para entender e aceitar isso.

Inculpar-me por negar valores escravizantes

verão, os arquitetos beneficiários da minha adulteração,

está ausente de todas as minha cogitações.

Investirei nesta atitude sem revanchismos ou competições.

Reivindicarei com energia, em contrapartida

a inalienável gerência e produção de todo o meu viver.